5 de novembro de 2013

Era tudo na mesma
Os meus barcos parados
Nenhuma onda
Nenhum remar

"Troquei o meu disco"
Corri algum risco
Deixei de ser rio
Passei a ser mar

27 de fevereiro de 2013

Ele estava sentado no chão com a maquininha sobre suas pernas. Objeto antiquado, ele sabia, mas não trocava por nada o prazer que o estalar de dedos nas teclas o presenteava. O café já estava extremamente frio, e algumas de suas gotas acrescentavam alguma coisa a mais ao chão sem graça e arranhado que sustentava não só o seu corpo e os móveis daquela sala, mas a sua falta de ideia. Falta de inspiração, usando uma palavra mais agradável. O cheiro de madeira velha, as cores pastel... Tudo o incomodava ali. Ele estava mais concentrado no que estava causando aquele incomodo todo do que com as palavras que ardiam por serem rasgadas e exploradas. Cansado disso, tomou a chave do seu quatro rodas e resolveu sair por ai alimentando seus olhos de coisas que fizessem trazer à tona a maravilha que era escrever e se completar. E conseguiu o que queria. Voltou, e mal colocando aquela máquina em seu colo novamente, seus dedos incontroláveis passaram a compor a mais bela melodia que move qualquer amante da escrita: o estalar da inspiração.

8 de fevereiro de 2013

Isso não é qualquer coisa de amor

Vou logo dizendo que isso não é um fragmento de amor. Eu me recuso a categorizar desse jeito qualquer coisa que eu tenha que escrever sobre você daqui em diante, mas prometo com dedos cruzados que esse é o último.

No início, havia até beleza. Era uma noite de sábado. Estávamos em uma praça com os nossos amigos, afim de matar o tédio, e você ficava tentando uns acordes no violão, enquanto todos os demais tentavam acompanhar cantando. Eu me lembro de cada detalhe, inclusive da camisa que você estava usando, e que já devia aquela estar sendo a vigésima vez que você a estava vestindo naquele mês. Mas, em meio a toda essa percepção de detalhes, a gente se “olhou”. Um olhar de maneira diferente, carregado de curiosidade sobre o que aquela pessoa poderia um dia representar na vida da outra. Um olhar de sobre como dever ser passear de mãos dadas com a mesma, ou mesmo um de como dever ser juntar ambas as famílias para uma churrascada na laje. Um olhar meio assim, cheio de todo esse significado besta. Foi quando a gente resolveu não se esquecer, e de pensar um no outro em meio as nossas rotinas tão conturbadas. E eu fui explorando cada vez mais você, que se mostrou um jeitão incrivelmente galanteador. Em plena madrugada eu recebia mensagens suas, como quem queria dizer “não consigo dormir, apenas penso em você”. Todo o seu dinheiro de pedagogo estagiário era gasto com presentes caros, daqueles que arrancavam suspiros. Parecia uma porção de coisas deliciosas em uma só pessoa. Eu até me perguntei se havia ganho na loteria! Mas, somente mais tarde eu vi que loteria não é coisa de Deus... Acabou que eu não soube administrar bem todo essa dinheirada que ganhei, e a gente não passou muito tempo junto. O que eu considerei uma alegria, pois embora eu não quisesse mais categorizá-lo com qualquer coisa relacionada ao amor, eu gostei de quando te comparei com uma escada. Quanto mais alta, maior a queda. 

E a propósito, desculpe-me pelas frases em tom de ironia. É que escrever sobre algo sem ter o mesmo sentimento do que foi colocado faz ficar assim mesmo.

Uma em um milhão

Era dia 11 de janeiro de 2012. Estávamos eu e a rafaméia no intervalo - apelido "carinhoso" da minha turma - bem quietinhos discutindo sobre a tão temida escolha de qual curso superior rondava a cabeça de cada um ali. Era uma coisa comum de se ver em escolas com ensino médio, ainda mais entre alunos já prestes a cursar o ultimo ano, como agente. As perguntas O que você vai tentar? ou Quais suas escolhas? ou mesmo Já se decidiu? eram as últimas coisas que você que nem mesmo sabe o que quer da vida profissionalmente gostaria de ouvir. Alguém como eu. Não que eu seja uma sem futuro que não tenha dedicado um minuto se quer do meu dia a fim de pensar em alguma coisa que alguém quando olhasse, dissesse: Caramba, Alanna, isso é a sua cara! Mas não. Eu tinha que gostar de várias coisas ao mesmo tempo.

Minha mãe ligava a TV sempre em um horário, e eu sabia que ela estava esperando alguma coisa, porque eu também estava. A espera era pelo passatempo favorito das pessoas que se encontravam na mesma idade dela, o que não seria delicado de comentar. Havia reviravoltas, amores possíveis e impossíveis, pessoas de todos os gêneros e gostos, tudo isso resumido em um único lugar. A espera era pelas novelas. Eu não sabia exatamente o que fazia essas pessoas ficarem quase a noite toda com suas "bundas" coladas na cadeira, assistindo uma e já ansiando pela próxima. Mas a medida que o tempo passava, eu percebia que o que elas queriam não era deixar de curtir a vida lá fora, mas sim se sentir como a mocinha, ou talvez o vilão... Meu papel ali não era me tornar uma viciada em televisão. O que me atraia mesmo era o que estava por detrás de toda aquela encenação: os textos. Era poder inventar personagens, tramas amorosas, florestas de pirulitos, um planeta onde não tivesse baratas... enfim, eu queria aflorar minha imaginação. Claro que eu naquela época - e ainda agora - não tinha conhecimento de como funcionava para tudo aquilo acontecer. Fiz milhares de testes vocacionais, e minha criatividade misturada com minha escrita juntinho com minha fome eterna de livros me levaram a um lugar: Comunicação Social. E, desde então, me senti inteiramente atraída, principalmente por causa da ideia de trabalhar com a ferramenta que eu mais gosto e domino: a arte de escrever. Quero dizer, quem não gostaria de trabalhar por amor? Dinheiro não é tudo.

A discussão ainda não havia cessado na cantina. Uns disseram pensar profundamente em Medicina, outros se sentiram ligados a algum tipo de Engenharia, e quando chegou minha vez de responder... "Não sei de nada e nem qual curso fazer. Só sei que quero escrever!" Um amigo meu, sem eira nem beira, balançou a cabeça em desaprovação e comentou: escrever não dá dinheiro não. Meu primeiro instinto foi de perguntar o porquê daquela opinião sem escrúpulos, pelo menos para mim. E, novamente, ele falou: uma coisa sem futuro, simples. E com um discurso promissor na ponta da língua citei sobre o quão feio e errado era aquela atitude preconceituosa com relação ao caminho escolhido por mim. Lembrando a parte em que abri aspas para falar uma grande filosofia dita por um grande professor meu "Você ganha dinheiro naquilo que você é bom". Depois que ele pareceu ter repensado no que havia dito, falou pela última vez: Não, não entenda mal. Mas é que não são todas as pessoas que se dão bem com isso. É uma em um milhão! E para poder terminar a conversa e, aproveitando, o texto, respondi: Sim, claro que não vão ser todas, porque eu vou ser essa uma em um milhão, acredite.